quarta-feira, 22 de julho de 2020

O Pregão

Foi numa aldeia pacata, como tantas outras que existiam, e quero crer que ainda existem. Os habitantes conheciam-se todos uns aos outros e os bons hábitos, a amizade e solidariedade faziam parte do dia a dia.

Foi no tempo em que não havia telemóveis, computadores, ecrãs ou outro tipo de informação, comunicação ou redes sociais. Televisões só uma, a preto e branco, de "cu grande", na sociedade da aldeia, para todos se juntarem a ver, especialmente, os soldados do ultramar a dizerem "até ao meu regresso".
Foi na aldeia, que sendo pequena, as notícias circulavam de boca em boca...
Também as notícias eram quase sempre as mesmas... mas algumas mereciam algum destaque, pela sua importância ou até pela sua urgência.
Para informar as pessoas, havia então o pregoeiro, conhecido pelo Homem dos Pregões. Este senhor, portador de voz grossa, alta e clara, tinha a missão de, nos principais largos ou praças da aldeia, gritar em alto e bom som, as tais novidades importantes. Os pregões eram quase sempre, lançados à noite, quando os trabalhadores estavam em casa. Por exemplo: alguém que queria vender uma casa, falava com o pregoeiro e este iria apregoar: "ATENÇÃO, FIQUEM TODOS A SABER QUE O JOAQUIM COXO TEM UMA CASA PARA VENDA. QUEM ESTIVER INTERESSADO VÁ AO SEU ENCONTRO NO DOMINGO, DEPOIS DA MISSA".
Claro que todos sabiam quem era o Joaquim Coxo e a que horas terminava a missa no domingo.
E este pregão era lançado três ou quatro vezes nos locais centrais, onde se pensava que chegasse ao ouvido do maior número de pessoas...
Era assim, oralmente, naquele tempo... também havia editais...

Foi diferente o pregão daquele serão; nunca tinha havido um igual na aldeia. E a população preocupou-se naquele dia, e admirou-se.
Foi assim, o que saiu da boca do homem, nos diferentes largos: "ATENÇÃO, QUEM TIVER A FILHA DO JOÃO ALEXANDRE, EM CASA, É FAVOR PÔ-LA NA RUA".
Simples, a filha do senhor João, que brincava na rua até ser noite, como todas as crianças, naquele dia, não chegara a casa às horas habituais. Os pais, preocupados mas com fé, pagaram ao pregoeiro para alguém pôr a filha na rua.
Foi assim, que rapidamente, os vizinhos da casa ao lado, puseram a menina na rua...
Os vizinhos tinham uma filha da mesma idade, mas as meninas raramente brincavam juntas. Naquele dia, foi diferente e o que parecia uma tragédia, não passou de uma mudança de hábito... as crianças tinham resolvido entrar juntas para continuar a brincadeira.
Tudo acabou bem, como vêem...

Se houvesse telemóveis, os vizinhos tinham avisado os vizinhos, sem sairem do sofá, que a menina estava lá...

Mas sobre pregões muito haveria para contar... e sobre telemóveis, nem falar...

São Garcia

Em 22/07/2000

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Meu menino grande

A primeira vez que te vi, foi espreitando sem autorização. Eras um bebé loirinho, de pele muito clarinha, que apetecia apertar... só desejei que o tempo passasse para saires do hospital e ires para a tua casa definitivamente.

E não demorou muito.
Um dia ou dois, já não me lembro!
E a segunda vez que te vi estavas satisfeito, já ao colinho de outra avó, de cabelos brancos... Enquanto cá esteve e até  partir amou-te incondicionalmente. Os teus pais babados riam de contentamento e foi aí que te peguei ao colo. Fazia tempo que não havia bebés na família... foi um consolo.
A terceira vez... e todas as outras, sempre que podia, visitava-te e abusava... vi-te a aprender a andar, a falar, a cantar... que ternura! Ao assobio do teu pai, identificavas a música e continuavas num la la la ritmado e acertado. Eras uma fofura, doce, muito educadinho, aonde chegavas davas um beijinho a toda a gente que estivesse presente... e foste crescendo, inteligente, traquinas o suficiente e comilão! Que bem te sabia a sopinha, o segundo prato e até uma fatia de pão. Doces... nem por isso. Gelados também não.
O tempo vai passando e hoje és um jovem menino bonito e bem sucedido. Um coração enorme, notas escolares excelentes, no futebol guarda redes e mais o futuro o dirá! Que sejas sempre feliz e conseguias fazer feliz os outros.

M.C. 1/06/2020